14/12/08

"O Sol dos Scorta" - Laurent Gaudé

O Sol dos Scorta”, do francês Laurent Gaudé, editado pela ASA, pode ser considerado, sem qualquer margem de risco, um dos melhores romances de 2005, tal a qualidade da escrita, a imaginação e o realismo de que está impregnado - não foi por acaso que ganhou o prestigiado Prémio Goncourt 2004.
Neste romance, do mesmo autor de “A Morte do Rei Tsongor”, cerca de 220 páginas chegam para contar a saga de uma família amaldiçoada, com raízes numa pequena, quente e seca aldeia do sul de Itália, Montepuccio. Gaudé descreve de forma sublime essa aridez, que da geografia escorre para as personagens. O início da obra, aliás, é revelador. Um homem, um burro, calor e uma aldeia deserta na hora da canícula, logo após o almoço. É uma saga familiar, mas à escala da pequena Montepuccio. Os Scorta, a família em causa, são poderosos, mas naquele ambiente pequeno, fechado e atrofiador, onde só há gente que se revela incapaz, por falta de preparação, de sobreviver longe dali.
A história começa em 1870, quando Luciano Mascalzone, um bandido que esteve preso quinze anos, regressa à “sua” Montepuccio. Sabe que nada de bom o espera – sabe que a morte é quase certa – mas tem uma obsessão: possuir Filomeni Biscotti, um desejo da juventude que o manteve vivo na prisão. Entra na aldeia, com o seu burro, na hora em que todos se escondem, na hora do sol inclemente, e vai directo a casa de Filomena.
Sem Luciano perceber, quem lhe abre a porta é a irmã mais nova desta, Immacolata, como o nome deixa adivinhar ainda virgem. Ela deixa-se violar pelo regressado, que não se apercebe da “troca”. Pensando ter cumprido o seu sonho de juventude, atravessa de novo a aldeia, mas desta vez não escapa à fúria dos aldeões, acabando por morrer satisfeito, sem saber que tinha possuído a mulher errada – Filomena havia morrido há já vários anos.
Immacolata viria a dar à luz Rocco, mas morre quase de imediato. Os aldeões, sendo Rocco filho de quem era, pretendem matá-lo, mas a criança é salva pelo padre e enviada para outra aldeia, onde viria a ganhar o nome Scorta – nascia assim, de um equívoco, uma nova linhagem. Tal como pai, Rocco dedicou-se à vilanagem inspirando temor em Montepuccio e redondezas. Assim seria em gerações futuras, de todas nos contando a história Gaudé. Os Scorta acabam por ganhar o respeito dos habitantes de Montepuccio, tanto pelo dinheiro que foram amealhando como pelo temor que inspiravam. Mas “O Sol dos Scorta” é, essencialmente, um livro sobre a importância dos laços familiares (ou de sangue) que resistem a todo o tipo de adversidades.
É a história de uma família amaldiçoada ao longo dos anos, e ao mesmo tempo a história de uma (como muitas outras) pequena aldeia com dificuldades em atravessar a passagem do tempo e em acompanhar a evolução natural. É que Gaudé descreve também os contrastes entre a tradição e a modernidade, nomeadamente com a chegada do turismo.
A religião é outro dos temas-chave deste romance, sendo explorada através da relação dos Scorta com os padres que se vão sucedendo na aldeia, uns mais abertos, outros mais retrógrados, mas sempre com um afecto especial, e até estranho, por aquela família onde Bem e Mal têm contornos pouco definidos.

"Zorro - O Começo da Lenda" - Isabel Allende

“Zorro - O Começo da Lenda” é um projecto único onde surgem unidos um dos heróis mais populares do mundo - Zorro - e uma das mais conceituadas escritoras da actualidade - Isabel Allende. Estes dois ingredientes por si só não bastam para fazer um bom livro, mas a verdade é que neste caso isso aconteceu. E a ideia até era arriscada, porque Allende fez sucesso como autora de outro tipo de obras e pegar num herói já com nome e personalidade feitas poderia ser limitativo. Contudo, Isabel Allende soube respeitar o justiceiro da mascarilha e construiu uma infância e juventude que encaixam na perfeição na ideia que temos de Zorro.
“Limitada” pelas características imutáveis de Zorro, a escritora aplicou toda a sua imaginação e fantasia na construção de um “passado” para o herói e, acima de tudo, para o homem que o “criou”, Diego de la Vega, recorrendo para tal a uma escrita rica mas acessível.Assim, na primeira parte do livro acompanhamos a infância de Diego, muito antes de este um dia sequer imaginar que viria a ser um herói misterioso. Diego nasceu no Sul da Califórnia no século XVIII, filho de um importante fazendeiro e de uma índia guerreira, e da mistura destes dois mundos resulta a “essência” do espírito de Zorro. Diego tanto aprende os hábitos da aristocracia proveniente de Espanha colonizadora, como os costumes dos índios colonizados. Assim, é ao mesmo tempo fidalgo, um senhor, e jovem com espírito selvagem e corajoso. A unir estes dois mundos está um grande sentido de justiça, que começou a germinar quando viu o tratamento infligido aos índios pelos colonos.Diego cresce (e vive) acompanhado por Bernardo, amigo para todas as ocasiões, que nasceu praticamente em simultâneo com ele, o que faz dos dois verdadeiros irmãos. O que um tem em força e impulso, o outro contrabalança com ponderação.
Aos 16 anos, para receber uma educação europeia, Diego parte para Barcelona, acompanhado pelo inseparável Bernardo. A viagem por mar tem a particularidade de proporcionar uma passagem pelos Açores.
Neste ponto do romance, Isabel Allende mistura a aventura e a acção com conhecimento histórico, já que retrata fielmente a situação de Espanha, então ocupada pelos Franceses, liderados por Napoleão. Diego de la Vega cai precisamente entre estes dois mundos, com os quais convive diariamente. São tempos complicados para Diego, tanto pela instabilidade política e militar como pelo facto de ter despertado para o amor, invariavelmente não retribuído – pelo menos pela parte das raparigas por quem se apaixona, o que será uma constante na sua vida.É em Barcelona que acaba por nascer Zorro, quando Diego tem de socorrer, em segredo, algumas pessoas que lhe são próximas. Para isso faz-se valer dos seus conhecimentos de espadachim, aprendidos com um verdadeiro mestre de esgrima e mentor que o iniciou na sociedade secreta “A Justiça”, que se dedica a ajudar pobres e indefesos.
Mas nem tudo corre bem a Diego, que a certa altura se vê obrigado a regressar à Califórnia para ajudar a família que o acolheu em Barcelona e que entretanto caiu em desgraça. A pé e em segredo, Diego e Bernardo atravessam Espanha, disfarçados de peregrinos de Santiago, em direcção à Corunha, onde apanham o barco para a América.
É nesta fase que se assiste à consolidação da personagem Zorro, com a parte justiceira de Diego a levar a melhor, mesmo que para isso tenha de abdicar de alguns prazeres da vida que teria por garantidos.
Neste livro há acção, amores e desamores, duelos, piratas, viagens, humor, morte, sofrimento, ou seja, todos os condimentos de um grande romance de aventuras, que em tudo honra o “futuro” de Zorro.
“Zorro - O Começo da Lenda” é uma edição da Difel.

11/12/08

"A Sombra do Vento" - Carlos Ruiz Zafón

Chegou de forma algo discreta às livrarias nacionais em finais de 2004, mas “A Sombra do Vento”, do espanhol Carlos Ruiz Zafón, (Publicações Dom Quixote), é sem dúvida uma das melhores obras literárias dos últimos anos. A acção decorre em Barcelona, sendo a própria cidade uma das personagens principais do romance, tal a influência e pressão que exerce sobre o enredo.
A história arranca em 1945, quando um rapaz, Daniel Sempere, é levado pelo pai, dono de uma livraria, a um local misterioso, o Cemitério dos Livros Esquecidos. Ali, ao acaso, escolhe uma obra que vai mudar a sua vida e levá-lo por caminhos tormentosos em busca de verdades e na tentativa de solução de mistérios.
O livro em questão chama-se, precisamente, “A Sombra do Vento”, e é da autoria do desconhecido Julián Carax.
Daniel “devora” o livro e fica fascinado pelo autor, tudo fazendo para lhe encontrar o rasto. Só que a busca, longa de anos, leva-o (e a nós) a viver uma série de acontecimentos, muitos incompreensíveis e com algo de fantasmagórico.
Enredado num intriga sem fim, onde cada pista leva a outra ainda mais obscura, num caminho que ele se apercebe vai empurrá-lo até um final doloroso, é ajudado pelo fiel Fermín, um sem-abrigo que tirou das ruas para trabalhar consigo na livraria do pai. Os dois levam a cabo uma tão paciente como perigosa investigação e vão conhecendo personagens estranhas, como o temível Fumero, um agente da autoridade que é um verdadeiro assassino, ou um assustador homem sem rosto determinado a eliminar todos os vestígios da obra, comercialmente falhada, de Carax.
Mas entre todos estes mistérios serpenteiam outras histórias, maioritariamente de amor. Uma delas, contada por terceiros, é a de Carax pela jovem Penélope, um amor proibido que seria afinal o motor de toda a trama. Outra é a do amor de Daniel por Bea, que encontra muitos paralelismos com a anterior. Aliás, aos poucos vai-se verificando que as histórias de Carax e Daniel têm tanto em comum que parece estarmos a rever a vida de um no outro.
Carlos Ruiz Zafón gere todos esta trama cheia de intrigas com uma aptidão notável, introduzindo novos e fantásticos elementos, como se de acontecimentos vulgares ou esperados se tratassem - portanto, não há perigo de se passar por aquela sensação tipo telenovela, de inclusão forçada de dados para fundamentar o complexo enredo. Pelo contrário, Zafón faz tudo de forma a que o enredo, intrincado de levar à loucura, seja absolutamente verosímil, mas sempre surpreendente.
“A Sombra do Vento”, que cativa desde logo por estar bem escrito, vai aos poucos prendendo o leitor à teia, e é a custo que se pousa a obra para uma pausa. Em crescendo prende irremediavelmente a atenção do leitor e é uma pena quando acaba. Não só “assistimos” a uma brilhante história, como através dela também ficamos a conhecer melhor o passado de Barcelona, aquele vivido nas ruas escuras.