11/12/08

"A Sombra do Vento" - Carlos Ruiz Zafón

Chegou de forma algo discreta às livrarias nacionais em finais de 2004, mas “A Sombra do Vento”, do espanhol Carlos Ruiz Zafón, (Publicações Dom Quixote), é sem dúvida uma das melhores obras literárias dos últimos anos. A acção decorre em Barcelona, sendo a própria cidade uma das personagens principais do romance, tal a influência e pressão que exerce sobre o enredo.
A história arranca em 1945, quando um rapaz, Daniel Sempere, é levado pelo pai, dono de uma livraria, a um local misterioso, o Cemitério dos Livros Esquecidos. Ali, ao acaso, escolhe uma obra que vai mudar a sua vida e levá-lo por caminhos tormentosos em busca de verdades e na tentativa de solução de mistérios.
O livro em questão chama-se, precisamente, “A Sombra do Vento”, e é da autoria do desconhecido Julián Carax.
Daniel “devora” o livro e fica fascinado pelo autor, tudo fazendo para lhe encontrar o rasto. Só que a busca, longa de anos, leva-o (e a nós) a viver uma série de acontecimentos, muitos incompreensíveis e com algo de fantasmagórico.
Enredado num intriga sem fim, onde cada pista leva a outra ainda mais obscura, num caminho que ele se apercebe vai empurrá-lo até um final doloroso, é ajudado pelo fiel Fermín, um sem-abrigo que tirou das ruas para trabalhar consigo na livraria do pai. Os dois levam a cabo uma tão paciente como perigosa investigação e vão conhecendo personagens estranhas, como o temível Fumero, um agente da autoridade que é um verdadeiro assassino, ou um assustador homem sem rosto determinado a eliminar todos os vestígios da obra, comercialmente falhada, de Carax.
Mas entre todos estes mistérios serpenteiam outras histórias, maioritariamente de amor. Uma delas, contada por terceiros, é a de Carax pela jovem Penélope, um amor proibido que seria afinal o motor de toda a trama. Outra é a do amor de Daniel por Bea, que encontra muitos paralelismos com a anterior. Aliás, aos poucos vai-se verificando que as histórias de Carax e Daniel têm tanto em comum que parece estarmos a rever a vida de um no outro.
Carlos Ruiz Zafón gere todos esta trama cheia de intrigas com uma aptidão notável, introduzindo novos e fantásticos elementos, como se de acontecimentos vulgares ou esperados se tratassem - portanto, não há perigo de se passar por aquela sensação tipo telenovela, de inclusão forçada de dados para fundamentar o complexo enredo. Pelo contrário, Zafón faz tudo de forma a que o enredo, intrincado de levar à loucura, seja absolutamente verosímil, mas sempre surpreendente.
“A Sombra do Vento”, que cativa desde logo por estar bem escrito, vai aos poucos prendendo o leitor à teia, e é a custo que se pousa a obra para uma pausa. Em crescendo prende irremediavelmente a atenção do leitor e é uma pena quando acaba. Não só “assistimos” a uma brilhante história, como através dela também ficamos a conhecer melhor o passado de Barcelona, aquele vivido nas ruas escuras.

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